Papéis Inesperados

Devemos a Aurora Bernárdez, viúva de Julio Cortázar, e a Carles Álvarez Garriga, cortazariano acima de qualquer suspeita, a aparição destes Papéis Inesperados, garantias mais do que suficientes para sossegar os espíritos que se inquietam com publicações póstumas. No ano de 2009, em que se assinalaram os vinte e cinco anos da morte de Cortázar, Papéis Inesperados foi recebido com entusiasmo pelos fiéis do culto cortazariano, como se o próprio escritor argentino tivesse regressado do além-túmulo. No entanto, este tipo de edições levanta questões legítimas: acrescenta algo ao que se conhece do autor? É um livro-fetiche para os indefectíveis do argentino ou servirá para conquistar novos leitores? Faz sentido juntar materiais tão diversos como poemas, contos, capítulos de romances, artigos de imprensa, entrevistas e considerações políticas? O autor estaria de acordo com a publicação de todos os textos ou alguns desmerecem a qualidade geral da obra?

 

Começando por esta última questão, qualquer um poderá especular se a publicação deste material respeita a vontade do autor. A verdade é que Cortázar queimou tudo aquilo que não achou digno de publicação e teremos de acreditar que a sobrevivência destes textos se deve à qualidade e não a uma prosaica falta de fósforos.

 

A variedade é suficiente para agradar a todos, desde o mais fiel adepto ao leitor mais desprevenido. Esta furiosa dispersão de materiais nem sequer é estranha ao código genético das principais obras de Cortázar. A Volta ao Dia em 80 Mundos tem essa lógica poliédrica de mundos dentro de mundos e Rayuela também é um universo em que as partes dispersas convergem para um todo. Se estes livros aspiram à totalidade - Rayuela como redefinição do romance, A Volta ao Dia em 80 Mundos como exercício em vários registos – diríamos que, de uma forma involuntária e póstuma, Papéis Inesperados partilha a mesma identidade múltipla. Se lermos o que o crítico Andrés Amorós escreveu sobre Rayuela (“una chistera de la que siguen saliendo, siempre, los objectos mas inesperados”, Rayuela, Introducción, p. 27, Catedra, 16ª ed, 2003) ou o que Ana Cristina Leonardo escreveu sobre A Volta ao Dia (“[...] a obra apresenta-se fragmentária, cubista, libertária [...] Brilhante, estimulante e, para mais, com ordem de leitura arbitrária.” Actual, Expresso, 24 de Dezembro de 2009) encontramos palavras que poderiam ser aplicadas com igual rigor para descrever Papéis Inesperados. Como se tudo o que Cortázar tivesse escrito convergisse para um único livro, uma obra total e totalmente inacabada. Mas, ao mesmo tempo que dá ao leitor liberdade de movimentos, a ordenação caótica dos textos exige-lhe uma participação activa. A leitura de Cortázar não é um processo passivo (o escritor rejeitava o que chamava de leitores-fêmea), é a parte final (ou infinita) da construção (ou destruição) do livro. Cortázar sabia que todos os livros são intermináveis, não porque nunca se acabam de escrever, mas porque a leitura do livro é inesgotável. Como escreveu um argentino cego: “La literatura no es agotable, por la suficiente e y simple razón de que un solo libro no lo es.” (Otras inquisiciones, p. 238, Alianza, 1997 [1952])

 

Dito isto, deve-se notar que a leitura de conhecedores e estreantes será necessariamente diferente. Para os primeiros, alguns dos textos agora publicados são nada menos do que textos litúrgicos que convidam à sobre-interpretação. Consideremos, por exemplo, A Fé no Terceiro Mundo. Alegoria da evangelização plástica do Terceiro Mundo, com igrejas portáteis e doutrina insuflável que não resistem à curiosidade acerada do índio ingénuo ou um pretexto para Cortázar pôr padres a gritar coños e caralhos? Serão também os conhecedores da obra a registar com maior nitidez o “prodigioso acontecimento da formação de um grande escritor” (Garriga, prólogo, p. 14) e os que mais facilmente perdoarão a fraqueza de alguns textos. Sendo o arco temporal tão largo, aqui se incluem alguns textos de juventude, onde nos aparece um Cortázar sisudo em versão de amanuense talentoso sem qualquer indício de humor (Discurso do Dia da Independência e Essência e Missão do Professor). A novela Os Gatos, apesar de escrita numa fase mais avançada, é menos antevisão do futuro Cortázar do que miniatura de bildungsroman burguês. Os mais fiéis cortazarianos decerto encontrarão sementes do mestre nestes textos menores mas farão a mesma figura das pessoas que, para não melindrar o pai, se esforçam por encontrar parecenças na criança que é a cara da mãe. Por sua vez, os leitores-virgem devem partir daqueles que são os melhores textos, no sentido em que mostram um escritor maduro, a desenvolver o melhor da sua arte: De Um tal Lucas, Um Cronópio no México ou Monólogo do Peão. A Tosse de Uma Senhora Alemã é quase um tratado para o bom entendimento do fantástico na obra de Cortázar. A propósito da audição do Concerto em Ré de Beethoven numa estação de rádio francesa, o escritor disserta: “Um argentino em Paris ouviu assim uma orquestra alemã e um violinista judeu que tocavam sob a batuta de um morto; tudo isso, que teria sido perfeitamente incompreensível há menos de um século, fazia e faz parte do ordinário, daquilo que a ciência explica às crianças nas escolas” (p. 194). A nossa preferência pessoal recai, contudo, no inédito e genial Manuscrito encontrado ao lado de uma mão, um conto onde a melomania, o humor e o absurdo se unem de uma forma tão perfeita que justificaria por si só esta edição.

 

 

A parte Circunstâncias, que contém entrevistas e reflexões sobre a situação política da América Latina, revela o Cortázar mais político, o intelectual comprometido. O facto de não contaminar a sua obra com propaganda e de ter escolhido viver em França (país que lhe concedeu a nacionalidade em 1981) valeu-lhe críticas à esquerda e à direita. Para Cortázar, o escritor, não podendo negar a sua origem e a sua cultura, não é um representante da pátria à guisa do jogador de futebol, sinédoque da nação, nem é o braço literário de uma qualquer ideologia. Não significa que, à boleia do seu prestígio, não possa manifestar as suas opiniões políticas. Pode e deve, e Cortázar não se coibiu de as expressar. As suas opiniões são uma emanação talentosa e intelectualmente sofisticada da esquerda dos anos 60, entusiasmada com as promessas da revolução cubana e ferozmente anti-imperialista. Mesmo afastando-se de um “comunismo esclerosado e dogmático”, Cortázar padecia da célebre hemiplegia moral patente na comparação demagógica entre a intervenção americana no Vietname e a soviética na Checoslováquia: “Eu pergunto-lhe […] se algum dos repórteres da Life viu crianças queimadas com napalm nas ruas de Praga.” Elucidativo. Comparem-se os textos sobre uma visita ao México (Um Cronópio no México) e uma viagem a Cuba (Novo Itinerário Cubano). Enquanto neste último se nota um deslumbramento ingénuo que retira à prosa algum do seu brilho cínico, de observação desinteressada, do humor absurdo, o texto sobre o México é literariamente muito mais conseguido (aos que, antes de nós, fizeram esta observação Cortázar mandou-os para a “puta que os pariu”). Quando o escritor transporta para a escrita a bagagem ideológica tem de deixar algum do talento na alfândega.

 

Não sendo uma cartografia exaustiva da obra de Julio Cortázar, Papéis Inesperados é um guia que nos proporciona vislumbres precisos da arte do escritor argentino. Não desiludirá os que a conhecem e admiram e é uma digna porta de entrada para os que se aproximam pela primeira vez de um labirinto do qual não se sai, nem se deseja sair.

publicado por Bruno Vieira Amaral às 17:43
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