A Literatura Nazi nas Américas

Ao Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luis Borges, falta esse magnífico animal chileno, o Roberto Bolaño (1953-2003). Escritor compulsivo, o Bolaño é um híbrido de cabeça borgesiana e de corpo realista, visceral, não raras vezes escatológico. É omnívoro, embora a sua dieta não inclua o realismo mágico, cuja simples visão lhe provoca reacções nervosas extremas. Acusado de ser um writer’s writer (animal meta-literário e erudito, contem-se as personagens dos seus livros que são escritores ou literatos), tempera essa tendência com um excesso de realismo que, por sua vez, descamba num ambiente ainda mais onírico e irreal (ver A Parte dos Crimes, em 2666). O Bolaño pega na herança de Borges e leva-a para campos de batalha e desertos cheios de cadáveres. Tão depressa cita William Beckford como logo a seguir nos serve descrições sangrentas de torturas; salta de Melville para um grafismo sexual que pede meças aos especialistas do género; inventa escritores centro-europeus e sádicos latino-americanos; domina as bibliotecas sagradas e as ruas sórdidas; da árvore da ciência só comeu metade do fruto: o que lhe deu o conhecimento do mal.

 

Em forma de enciclopédia de escritores imaginários e de bibliografias inventadas, A Literatura Nazi nas Américas (1996) é um produto da cabeça borgesiana de Bolaño e peça central do puzzle que é a sua obra. Entre personagens extravagantes, como o poeta argentino que também é líder da claque do Boca ou o pensador brasileiro especialista em refutações prolixas de grandes nomes da filosofia, aparecem pela primeira vez outras que hão-de ser repescadas no futuro: Ramírez Hoffman é o modelo para Carlos Wieder de Estrela Distante e a história do general romeno Eugenio Entrescu é narrada pormenorizadamente em 2666. Os grandes temas – o Mal, a loucura, a solidão do escritor perante uma eternidade que desdenha dos seus esforços – são anunciados. O ofício da literatura, capaz de proporcionar a glória, é também a via tortuosa para o esquecimento. Os escritores imaginados por Bolaño suicidam-se, enlouquecem, desistem, abrem frutarias ou restaurantes, os textos inéditos são atirados para o lixo - é longo o inventário de derrotas e desenganos. O que pode um escritor contra o tempo se entre uma biografia imaginária e a vida de um autor que já ninguém lê não existe uma diferença substancial? Só há uma saída: escrever, escrever, escrever. É essa a lição de A Literatura Nazi nas Américas. É esse o exemplo do animal Bolaño.

publicado por Bruno Vieira Amaral às 20:29
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