A Guerra do Fim do Mundo

O romance está morto. O narrador omnisciente é uma antiguidade novecentista, uma fraude. Estas teorias, que atingiram o auge da popularidade nos anos sessenta, nem sequer arranham as paredes da fortaleza clássica que é A Guerra do Fim do Mundo. Publicada em 1982, a obra de Mario Vargas Llosa ignora essas discussões teóricas, remetendo-as para o baú das excentricidades intelectuais que marcam o declínio da cultura francesa. Perante este romance, o nouveau roman, os exercícios literários sem personagens e sem intriga, dissolvem-se no ar, esfumam-se, inexistem.

 

A Guerra do Fim do Mundo reconstitui acontecimentos históricos do final do século XIX, quando, numa pequena localidade do nordeste brasileiro, Canudos, uma seita milenarista, liderada pelo profeta António Conselheiro, desafiou o poder da então jovem república brasileira. Os fanáticos, um grupo heterogéneo composto por ex-cangaceiros e jagunços, beatos e pobres, rejeitavam medidas políticas como o casamento civil, o sistema métrico, os recenseamentos e os impostos. Acreditavam que, quando fossem atacados pelas autoridades, D. Sebastião e o seu exército viriam em seu socorro. No meio da disputa entre republicanos e monárquicos, o movimento religioso de Canudos tão incompreensível fora da grelha política tradicional que era impossível acreditar que se tratasse de um movimento popular, espontâneo e místico. Os republicanos viam-no como uma manobra dos fazendeiros da Baía, dos adversários do novo regime e dos ingleses. Só essa incapacidade para compreender as motivações de um inimigo que não temia a morte explica que as primeiras três expedições enviadas pelo exército tenham sido derrotadas por camponeses munidos de alguma artilharia, mas sobretudo de machetes, foices, paus, pedras e de uma convicção sobrenatural na natureza da sua missão.

 

Neste romance total, de uma estrutura narrativa impressionante, Vargas Llosa esquadrinha todas as dimensões da sociedade, dos pobres aos poderosos, da política à religião, da guerra à intimidade, da morte ao amor. Barões, criminosos, coronéis, padres, jornalistas, índios, revolucionários, comerciantes, mendigos, aberrações de circo: a humanidade no seu esplendor múltiplo, na sua interminável busca pela felicidade, pela justiça, pelo amor e guiada por ideais tão diversos quanto Deus, a República ou a Justiça, por valores, como a honra, e impulsos, como o desejo primitivo, que transcendem todas as barreiras sociais. A grandeza deste livro só se percebe se dissermos que é um dos maiores romances do século XIX.

publicado por Bruno Vieira Amaral às 23:52
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