Segunda-feira, 27 De Setembro,2010

Três Mulheres Poderosas

A escritora francesa Maria Ndiaye conquistou o prémio Goncourt com este romance sobre três mulheres inadaptadas, porém suficientemente fortes para não soçobrarem perante as adversidades.

 

De acordo com a velha máxima, por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher. Neste romance, em que mesmo os homens fortes são fracos, há sempre uma mulher que resiste, que teima em não definhar na sombra. As três mulheres poderosas, cujas vidas estão superficialmente ligadas, lutam todas contra o mesmo. Norah luta contra a figura de um pai ausente mas opressivo. Fanta usa o silêncio para combater um marido que a arrastou para o seu próprio falhanço. Khady Demba enfrenta a memória do marido morto ao qual não conseguiu dar descendentes. Como viveram sempre em função das expectativas masculinas, desenvolveram a arte de lhes suportar o peso sem perder de vista a própria identidade. Esse peso, e o sofrimento que dele resulta, é mais um teste à capacidade de adaptação do que à capacidade de resistência. E Norah, Fanta e Khady encontram sempre maneira de se adaptarem, de encontrar um lugar, por mais frio, triste ou infecto, que seja só delas. A força destas mulheres é o seu verdadeiro dote, o objecto da cobiça masculina. Como se fossem portadoras de um bem sem o qual toda a fraqueza masculina ficaria exposta, a exemplo do que acontece ao marido que, “a pretexto de a amar, fechara Fanta numa prisão de amor lúgubre e fria.”

 

A prosa de Marie Ndiaye espraia-se por frases longas e ricas em adjectivos que se encadeiam harmoniosamente para atingir uma descrição exaustiva, mas não cansativa, dos estados emocionais das personagens. Emoções que são potenciadas pelas características dos locais onde a acção decorre: da casa despovoada do pai de Norah à sala asfixiante onde Khady Demba vende o corpo, da modorra da província francesa às ruas agitadas de uma cidade africana. Tal como as personagens femininas, resistentes mas flexíveis, a escrita de Marie Ndiaye move-se com igual presteza por esses mundos opostos sem abdicar da sua integridade. Como se a obra, embora dividida entre Europa e África, feminino e masculino, pertencesse antes de mais ao artista, esse ser que habita nas intersecções.

publicado por Bruno Vieira Amaral às 18:50
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Vozes no Escuro

Vozes no Escuro, do escritor portuense Rui Vieira, pretende ser um romance polifónico, mas as várias vozes que narram a história não se diferenciam. É uma polifonia monocórdica, como o resultado do esforço de um mau ventríloquo.

 

Por vontade da mãe, uma jovem de dezassete anos é enviada para um convento. Nos dias que ali passa é visitada pelas vozes das mulheres que, há muitos anos, conheceram o mesmo destino e sofreram as mesmas privações. Enquanto acompanhamos o sofrimento físico e espiritual da jovem, vamos conhecendo os dramas da sua família através da mãe religiosa, da avó moribunda, da tia louca e do pai afogado.

 

O romance vegeta nos lugares-comuns da condição feminina: sexualidade reprimida, prazeres proibidos e conventos. Rui Vieira não permite que nos esqueçamos do assunto: “já era mulher”, “eu ainda não mulher”, “com inveja de não sermos mulheres”, “queria ser mulher”, até ao definitivo “vou ser mulher”.

 

A prosa poética de Rui Vieira abusa dos mesmos substantivos (muitas pedras, cinzas, águas, neblinas, sombras e névoas), repete motivos em busca de uma cadência que nunca chega a atingir (o sorriso do pai na fotografia, a tia louca que embala uma boneca de pano), perpetra imagens francamente assustadoras (“o olhar terno dos pássaros”), aliterações inúteis (“no catre do quadro no corredor para o Cadeiral”) e redundâncias assassinas (“cozinheiros fritam em frigideiras”). Quando incorre no sexo vai do abjecto (“cheiro a carne apodrecida”, “a podridão da carne”, “conheci a putrefacção da carne”) à floricultura (seios que se tornam flores e sexos que se abrem como um botão de flor), sem falhar os transes místicos inspirados em Santa Teresa de Ávila (“um sonho em que o meu Senhor é carne”).

 

Rui Vieira procura cauções exteriores na divisão da estrutura em quatro partes (os quatro elementos), em abundantes passagens bíblicas e em citações do livro Cartas Portuguesas. Fica a ideia de que são enxertos desnecessários que não dialogam com o livro e que têm o efeito perverso de evidenciar a pobreza da matéria-prima. A nota final, em que o autor se justifica, era dispensável, qualidade que partilha com o resto da obra.

publicado por Bruno Vieira Amaral às 18:49
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O Tesouro

“Na época em que o rei Frederico II da Dinamarca reinava na província de Bohus, vivia em Marstrand um pobre peixeiro, de nome Torarin.” Um arranque destes já era anacrónico quando Selma Lagerlöf escreveu O Tesouro, em 1904. Hoje, assente que está a poeira das modas, podemos considerá-lo intemporal. A história emerge com a solidez da sua simplicidade. Combina elementos dos contos populares e das histórias de fantasmas, sob uma atmosfera moral e religiosa, inspirada em lendas escandinavas e em episódios bíblicos.

 

O Tesouro narra a história de Elsalill, uma rapariga que se apaixona por um dos homens que lhe matou a família. Perseguida pelo fantasma da irmã adoptiva, Elsalill vive atormentada pela dúvida: denunciar o homem que ama ou fugir com ele, tornando-se cúmplice do crime e carregando em silêncio a culpa dos dois. A questão central do romance é este dilema moral de Elsalill, no qual se confrontam os seus sentimentos e uma noção de justiça transcendente. Enquanto os assassinos não são punidos, não é apenas a alma da irmã que não tem descanso; a própria Natureza, o longo braço de Deus, impõe as suas leis. O barco que levaria os criminosos de volta à Escócia, de onde eram originários, permanecerá encalhado no gelo até que a justiça seja feita. Sendo a paixão de Elsalill o único obstáculo entre o crime e o castigo, o seu sacrifício torna-se a condição para o apaziguamento dos defuntos e da cólera divina. Ao aceitar o seu destino trágico, Elsalill expia o seu pecado: o de um amor corrompido pela culpa.

 

Simples na caracterização das personagens e na descrição dos ambientes, e profundo no tratamento dos temas (amor, culpa, redenção), O Tesouro é uma obra anti-naturalista que reveste a estrutura dos contos tradicionais de uma sensibilidade cristã típica dos países nórdicos. Um antepassado literário de filmes como A Palavra (Dreyer), A Fonte da Virgem (Bergman) e Ondas de Paixão (von Trier), com os quais partilha a austeridade mística e a economia narrativa. Selma Lagerlöf, a primeira mulher a receber o Prémio Nobel, escreveu um romance sem adiposidades, sempre as primeiras presas da voracidade do tempo. A designação de clássico serve-lhe na perfeição.

publicado por Bruno Vieira Amaral às 18:48
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Verão

Quando a personagem principal de um romance de J.M. Coetzee é um escritor sul-africano chamado John Coetzee, o alarme metaliterário dispara. O leitor, que se julga sempre mais esperto do que o escritor, aproxima-se cautelosamente, com a esperança de comer o isco confessional sem ficar com a boca presa no anzol da ficção. Mas o pescador experiente, como é o caso de Coetzee, faz do isco e do anzol um só corpo. O peixinho está condenado a saber menos do que o pescador. Deve ler e deleitar-se com a arte que o engana.

 

Após a morte de John Coetzee, o seu biógrafo entrevista cinco pessoas (quatro mulheres e um homem) que se cruzaram com o escritor no período entre 1972-77, antes da consagração literária. Dos relatos fragmentados emerge uma imagem unívoca e pouco favorável do homem. Mais do que um inadaptado, era um inadaptável. É retratado pelas mulheres como assexuado e frouxo, “um homem sem aptidão para o casamento, como um homem que passou a vida no sacerdócio e perdeu a virilidade e se tornou incompetente com as mulheres.” Socialmente, Coetzee assemelhava-se a um seminarista divorciado do próprio corpo, divorciado dos outros. Calvinista nos afectos e na falta de jeito para a dança, era “um homenzinho sem importância”, sem nenhum sinal exterior do talento que haveria de demonstrar.

 

Apesar do jogo de espelhos auto-referencial, Verão não é um romance solipsista. É uma (falsa) biografia em construção, em que os personagens secundários (os entrevistados) invadem o palco principal, deixando o protagonista fora de cena. Desta forma, o foco do romance desvia-se, em determinados momentos, do mundo fechado do escritor para incidir sobre a sociedade sul-africana: a gradual transformação das relações entre negros e brancos, o desencanto burguês dos subúrbios e a ligação complexa dos colonos ao país.

 

Quase no final do livro, uma das personagens faz uma avaliação crítica da obra de John Coetzee. Conclui que o estilo, “demasiado frio”, denota falta de ambição. Ela projecta nos livros as qualidades do homem, enquanto que a mensagem do romance é a oposta. Não devemos confundir o homem com a obra. Não devemos confundir J.M. Coetzee com John Coetzee.

publicado por Bruno Vieira Amaral às 18:48
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Cordilheira

A badana do livro, fonte sempre fiável, assegura-nos que Daniel Galera é “considerado o melhor escritor brasileiro da sua geração”. O melhor elogio que se pode fazer é que o terceiro romance do escritor gaúcho não desmente a badana. Cordilheira é um livro de um escritor maduro, sem o espalhafato verbal com que se impõem muitos dos novos valores e sem a colagem a patronos literários que facilita a entrada na primeira divisão das letras. Aqui de nada servem os baptismos fáceis, “Guimarães Rosa de Porto Alegre” ou “Machado de Assis do século 21”. Galera é o seu próprio padrinho.

 

A história é narrada por Anita van der Goltz Vianna, uma jovem escritora a quem o sucesso do primeiro livro perturba mais do que motiva. O seu grande objectivo é mais doméstico: ser mãe. Mas o entusiasmo de Anita não contagia Danilo, o namorado, que pensa que ela faria melhor em investir na carreira literária. Perante a recusa de Danilo de a acompanhar no seu projecto egoísta e após o suicídio de uma amiga, Anita aproveita o lançamento do seu romance em Buenos Aires para deixar tudo para trás e perseguir o seu desejo: “Eu desejava o mais próximo que poderia haver de uma concepção milagrosa”. Anita sai do Brasil e mergulha na ficção, decidida a controlar os acontecimentos em vez de lhes atribuir um sentido a posteriori. Embora não tão arrojada, é uma ideia semelhante à de José Holden, o homem com quem se envolve. Holden e os seus amigos não se contentam com escrever livros, assumem a vida das suas personagens até às últimas consequências.

 

Enquanto nos diverte com alguns passos metaliterários (a Carnicería Cortázar, a tasca La Catedral), Daniel Galera não faz do estilo um traje carnavalesco. A sua prosa é clássica sem ser barroca e actual sem ser “moderninha”. Consegue imagens que não podiam ser de outro tempo (“[...] seu piscar azulado transformou a sombria alameda Chile num ambiente de rave evacuado.”) e guarda a melhor mão para momentos-chave: a descrição rigorosa de um ataque de pânico ou uma cena de sexo com as palavras certas no sítio certo. Mesmo quem não aprecia consagrações de badana não poderá negar que o século XXI já tem o seu Daniel Galera.

publicado por Bruno Vieira Amaral às 18:47
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Biografia José Saramago

Esta biografia de José Saramago, da autoria do investigador João Marques Lopes, é a prova da difícil relação dos portugueses com o género. Trata-se do percurso invulgar do único prémio Nobel da literatura de língua portuguesa e de um homem polémico que ainda não perdeu a capacidade de provocar reacções epidérmicas aos adversários de sempre: a direita e a Igreja Católica. No entanto, se compararmos esta biografia com as de outros nobelizados, como Gabriel García Márquez e V.S. Naipaul, não podemos deixar de sentir a falta de ambição e de talento para nos dar um retrato mais completo e complexo não só do homem e do escritor, mas também da sua época. É verdade que nem todos podem ser Ruy Castro, cujas biografias são muito provavelmente o expoente máximo do género em língua portuguesa. O que não desculpa a linguagem burocrática e, pontualmente, hermética de Marques Lopes, que confunde o rigor da investigação com uma prosa em rigor mortis. A função do biógrafo é de transportar o leitor para a vida do biografado e não para os arquivos e bibliotecas onde fez a pesquisa, por muito meritória que esta seja. Uma das opções mais questionáveis é a ausência de entrevistas. A base da investigação é exclusivamente documental, o que não se compreende, tendo em conta que alguns dos protagonistas dos episódios mais polémicos da vida de Saramago poderiam oferecer testemunhos relevantes. Seria interessante ouvir o desaparecido Sousa Lara ou Maria Lúcia Lepecki, membro do júri do prémio da APE que elegeu O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que votou por uma obra de que ninguém se lembra. Em relação a outras polémicas, Marques Lopes suaviza a participação de Saramago no saneamento de jornalistas do DN durante o PREC, menospreza a crítica literária quando esta não é simpática com Saramago, atribuindo-lhe motivações ideológicas, e eleva o escritor à condição em que o próprio gosta de se rever: a de profeta-mor dos desempregados morais do comunismo. As afinidades ideológicas entre biografado e autor são óbvias e, até por esse motivo, este será o primeiro a reconhecer que a biografia paroquial que escreveu não honra a dimensão universal de Saramago.

 

publicado por Bruno Vieira Amaral às 18:45
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O Mundo Alucinante

Para se afirmar, a identidade de um povo precisa de historiadores, de romancistas e de bons electricistas, e destes apenas para evitar que os outros percam tempo a trocar fusíveis. Um povo pode lutar e conseguir a independência, mas “o grito de Ipiranga” é apenas o meio do percurso na estrada que leva à construção de uma nação. Por este motivo, a luta dos povos americanos pela independência e o “combate” dos escritores latino-americanos, um século e meio mais tarde, pela emancipação cultural são dois momentos do mesmo caminho. A autodeterminação de um povo não fica completa sem o direito a narrar a própria história, a fundar novas mitologias e a consagrar as suas figuras e os seus heróis. Foi esse o papel da literatura latino-americana. Não como um projecto subordinado a ditames de natureza política ou estética, mas como um conjunto heterogéneo de vozes que, para benefício de todos, parecia cantar em uníssono. Daí que, mesmo uma voz marginal e rebelde, como a do escritor cubano Reinaldo Arenas (1943 – 1990), possa ser incluída no coro.

“O Mundo Alucinante”, romance publicado no auge do chamado boom da literatura latino-americana (1966), é um contributo para aquelas mitologias. Arenas pegou na figura histórica do frade mexicano Servando Teresa de Mier e compôs uma hagiografia secular, delirante, poética e surrealista. A escolha não foi inocente. Defensor da independência das colónias americanas, Frei Servando foi condenado ao desterro em Espanha por heresia. Várias vezes preso, conseguiu sempre fugir. Percorreu a Europa e deparou-se com a decadência dos costumes e a corrupção moral. Esteve em Itália, “onde os ladrões são tão abundantes que quando alguém não o é o canonizam imeditamente; em Espanha, “[...] a Roma de Nero comparada com a corte de Espanha, pareceria a casa de Deus e de todos os santos.” Tudo aquilo que viu inflamou o seu “mais forte e maior desejo”, a independência da sua pátria. “Até quando seremos considerados como seres paradisíacos e lascivos, criaturas de sol e água?...Até quando vamos ser considerados como seres mágicos guiados pela paixão e pelo instinto?” Era hora de o homem americano se libertar da canga incapacitante do “bom selvagem” e assumir as rédeas do seu destino.

Muitos anos depois, os escritores fizeram o mesmo. Reclamaram o direito de construir a sua própria genealogia. Como se pode comprovar neste livro, em que Arenas se apropria da tradição literária europeia e produz um artefacto miscigenado, distintamente americano e de fôlego universal. Não renega a herança para dar ares de “falso primitivo”. Arenas é Cervantes nas deambulações por uma Espanha desoladora e numa citação do discurso de D. Quixote sobre a liberdade. Arenas é Homero, e Servando é o seu Ulisses que regressará a Ítaca – a América idealizada - para libertar a pátria dos usurpadores. Arenas, e aqui paga o seu tributo à modernidade, também é Virginia Woolf e, “Orlando”, outra biografia atípica, a matriz que inspira o romance com o desrespeito pelas convenções narrativas. O romancista, ao contrário do historiador, não precisa de colmatar as lacunas da História com hipóteses verosímeis. Bastam-lhe a imaginação e a saudável tendência para quebrar as regras.

publicado por Bruno Vieira Amaral às 01:18
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A volta ao dia em 80 mundos

A Volta ao Dia em 80 Mundos é o melhor livro para se entrar no universo do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984). E é também o pior. É o melhor porque este caleidoscópio vertiginoso, publicado em 1967, reúne ensaios e contos, poemas e crónicas, e maravilhas de ourivesaria como Louis, Enormíssimo Cronópio. É o pior porque esta máquina enciclopédica, em que vamos viajando através dos 80 ou mais mundos de Cortázar, pode desanimar o leitor menos persistente. Não se esperem, portanto, facilidades do encontro com a obra de Cortázar.

 

O título pode criar no leitor uma expectativa de paródia ou de gracejo erudito. Depois das primeiras páginas, este leitor terá perdido toda a vontade de tratar Cortázar por che. É que, ao contrário de O Jogo do Mundo (Rayuela), este livro não vem com manual de instruções. Sugerimos, pois, que o leitor inicie a abordagem ao livro por territórios reconhecíveis e onde a mão de Cortázar sempre foi mais feliz: os contos. Tema para São Jorge, Com Legítimo Orgulho e A Carícia mais Profunda são óptimos preliminares para o deleite futuro. O primeiro trata de López, um ergofóbico que em todos os locais de trabalho encontra um monstro feito dos hábitos do escritório; o segundo relata a história de uma comunidade cujo espírito gregário assenta na antiga tradição de recolher as folhas secas; o terceiro conto é kafkiano do início ao fim, a história de um homem que se afunda no chão, a cada dia que passa cada vez mais, sem que as pessoas à sua volta se dêem conta do facto. Nestes contos exemplares da arte de Cortázar, o fantástico não é o avesso do real, um mundo invisível habitado por entes sobrenaturais; é aquilo que paira no ângulo morto da realidade. O monstro que só é visto por López e o homem que se afunda no chão sem que ninguém repare não são menos monstruosos, fantásticos e absurdos do que a anestesia do quotidiano que impede que os outros os vejam.

 

Feito o tirocínio, saciado o desejo de leitor-fêmea (Cortázar haveria de corrigir esta expressão para leitor-passivo), é altura de avançar. A Volta ao Dia em 80 Mundos, como bom labirinto de um escritor com apetência para o jogo, tem muitas entradas: a paixão pelo boxe e pelo jazz (Thelonious Monk e Clifford Brown), o fascínio da voz de Gardel ouvida na grafonola, a contaminação da memória pela imaginação (Acerca da maneira de viajar de Atenas a Cabo Súnion), o presente e o futuro da literatura latino-americana ou o grave problema que os argentinos enfrentam para iniciar uma carta (Querido Amigo, estimado, ou o nome sem mais). Esta última entrada é uma emanação directa do sol que está no centro do universo de Cortázar: o humor. Um humor com a cara de Buster Keaton, um sol com raios de melancolia. Um humor que nos resgata da seriedade bolorenta e fúnebre que alguns escritores, mais propensos à metafísica e à solenidade, confundem com a grande literatura. Cortázar fustiga-os. “Por que diabos existe entre a nossa vida e a nossa literatura uma espécie de «muro da vergonha»?” Uma questão dirigida aos escritores argentinos da altura, mas que, a 40 anos de distância e no periférico mundo das letras portuguesas, não perdeu utilidade.

 

publicado por Bruno Vieira Amaral às 01:17
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101 Monstros

Defenestrações, genocídios, empalações, torturas, envenenamentos: o cardápio de crueldades de que o ser humano é capaz é praticamente inesgotável. O historiador Simon Sebag Montefiore, com a colaboração de John Bew e Martyn Frampton, escolheu 101 exemplares da maldade humana. Aqui encontramos estadistas poderosos, imperadores megalómanos, ditadores sanguinários, mas também traficantes de droga, profetas alucinados e assassinos em série. Em certos momentos, temos uma sensação de déja vu. As mesmas histórias de ambição e de loucura representadas por personagens diferentes. A crueldade não conhece ideologias, religiões ou territórios e distingue-se pela facilidade em inventar inimigos, isto é, em angariar vítimas. Inimigos da Pátria, da Revolução ou de Deus, judeus, homossexuais ou índios: a diferença, real ou fabricada, é o pretexto mais comum para a prática de atrocidades. Da antiga Babilónia à África pós-colonial, do Império Romano à Alemanha nazi, da Chicago de Capone à Sicília de Riina, da Espanha inquisitorial aos campos de treino de terroristas no Afeganistão, o Mal encontra sempre maneira de se manifestar. Não o Mal enquanto categoria ontológica, mas o mal enquanto expressão objectiva do pior que habita o ser humano. No prefácio, Montefiore lembra que alguns dos homens que escolheu, como Genghis Khan ou Tamerlão, mereciam um livro à parte, o dos heróis-monstros. O génio que demonstraram no campo de batalha atenua o horror dos crimes que cometeram, relativiza-os. Não são poucos os exemplos de homens cuja grandeza política assenta em pilhas de cadáveres. No entanto, há crimes que resistem ao relativismo histórico e às propagandas patrióticas ou religiosas. É por isso legítimo falar do Mal, desde que não sirva para escamotear o facto de que a crueldade é uma escolha. Pode revelar aspectos da natureza humana que são difíceis de entender mas não deve ser desculpada com base em relativismos culturais ou, pior ainda, abordagens metafísicas. Hitler e Estaline não eram monstros, nem demónios. Eram homens. É isso que assusta. Ainda mais assustador é pensar nos actores secundários, nos milhares de “pessoas banais, que se transformaram em assassinos e torturadores”. Algumas das entradas deste manual de maus costumes não teriam sido possíveis sem a colaboração desses cúmplices anónimos. Alguns mancharam as mãos de sangue, outros cobriram-se com a ignomínia do silêncio.

 

Montefiore diz que “todos nós deveríamos conhecer estas personagens, lembrar os seus crimes e termos, sobre eles, a nossa própria opinião.” A estrutura enciclopédica e o estilo expositivo desta obra, convidam o leitor a tirar as suas próprias conclusões. Será esta a melhor maneira de impedir desgraças futuras? Dificilmente. As nossas mentes saturadas do horror servido em directo pelas televisões são pouco sensíveis a lições de História. As toneladas de actos horrendos despejadas por Montefiore embatem contra espíritos moldados por uma cultura que suaviza os monstros. Para além disso, o repertório da crueldade, suficientemente vasto para fazer o tempo andar para trás, não deve ser menosprezado. Quando comparada com a barbárie primitiva do genocídio no Ruanda a sofisticação tecnológica com que os nazis implementaram a solução final parece oriunda de um futuro macabro de ficção científica. A História repete-se com ligeiras nuances, mas sempre como tragédia.

publicado por Bruno Vieira Amaral às 01:15
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A sala de vidro

A Sala de Vidro, romance do britânico Simon Mawer, percorre 60 anos da história europeia. No centro da narrativa, uma casa. Mais do que uma casa, uma obra de arte arquitectónica. Mais do que uma obra de arte, um símbolo da crença no futuro e no progresso. Só que o futuro, quando chega, vem de botas cardadas e carregado de ódio. O futuro racional e límpido anunciado pelas linhas rectas e pelas paredes de vidro não se cumpre.

 

Na Checoslováquia, no final dos anos 20, os recém-casados Viktor e Liesel Landauer encomendam o projecto de uma casa ao arquitecto Rainer von Abt. Viktor, um industrial judeu, quer libertar-se do Romantismo e do apego ao passado e encontra em von Abt o homem certo para materializar essas aspirações. Os olhos de Viktor estão postos no futuro, num tempo em que “o facto de serem checos ou alemães ou judeus” não tenha importância. O arquitecto, por sua vez, “deseja tirar o Homem da caverna e pô-lo a flutuar no ar.” Com a invasão alemã, a família Landauer é obrigada a refugiar-se na Suiça, seguindo depois para os Estados Unidos. A casa é ocupada por cientistas alemães que aí instalam um laboratório para medição e catalogação de seres humanos. Mais tarde, após a guerra, a Casa Landauer é utilizada como ginásio para reabilitação de crianças deficientes. No final do livro, em 1990, a casa funciona como museu. Nenhuma das mudanças que o espaço sofre ao longo dos anos diminui o fascínio exercido sobre quem o visita. A Sala de Vidro, o ex-libris da casa, é dotada de uma essência que sobrevive às funções circunstanciais. Deste modo, Simon Mawer confronta Arte e História, a tranquilidade da Casa Landaeur em contraste com as convulsões do mundo exterior. Ao resistir às investidas dos acontecimentos históricos, a casa espelha as alterações políticas e sociais mas não se transforma na imagem que reflecte. Esta dimensão “teórica” do romance não é servida em bruto. Mawer dilui as reflexões (sobre arquitectura, sobre história) numa narrativa por vezes demasiado intrincada, a roçar o inverosímil, mas que consegue transmitir o essencial: a influência da sala de vidro – a personagem principal do romance – no comportamento das restantes personagens. É uma lição de arquitectura: a sala não é um mero cenário, mas um actor em interacção com os outros.

 

A Sala de Vidro foi um dos finalistas do Booker Prize de 2009. O autor fez por merecer a distinção. A prosa de Simon Mawer é quase tão translúcida como a própria casa. Mawer esforça-se para que não reparemos nele, o que é parcialmente conseguido na quinta parte do livro, que poderia ter sido escrita por Milan Kundera. A exemplo do que sucede na obra do escritor checo, passado e futuro, memória e esquecimento, são as forças magnéticas do romance de Mawer. A família Landauer caminha em direcção ao futuro, atraída pelos contornos nítidos da casa, mas vê-se obrigada a deixar tudo para trás, para fugir de um presente ameaçador, um presente com as rugas do passado. E é irónico que a casa, que começa por ser o símbolo de um novo começo, acabe como museu, o centro nostálgico que irradia uma ideia de felicidade perdida mas sempre luminosa.

publicado por Bruno Vieira Amaral às 01:15
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