Domingo, 16 De Janeiro,2011

Os Comboios vão para o Purgatório

“ – Deviam ser uns três mil”, murmura José Arcadio Segundo em Cem Anos de Solidão, depois de escapar de um comboio cheio de cadáveres. “Foram mais de três mil os mortos na escola de Santa Maria”, diz uma das personagens de Os Comboios vão para o Purgatório, do chileno Hernán Rivera Letelier.


Morte, anjos e fantasmas cruzam as páginas deste romance, cuja acção decorre num comboio que atravessa o Atacama, “o deserto mais triste do mundo”, em direcção ao purgatório. Os passageiros estão vivos mas envoltos numa aura sobrenatural, num limbo de esperanças ténues e de recordações amargas: “o facto de viajar, sobretudo de comboio, levava homens e mulheres a entrarem num estado de crepúsculo” (p. 19) ou “extenuados e sujos, com cara de mortos que acabaram de sair da vala comum” (p. 139). Estamos, portanto, nos terrenos áridos de Pedro Páramo, de Juan Rulfo, mas na prosa de Rivera Letelier sopra um vento da grandiloquência de García Márquez. Uberlinda Linares, a paixão do acordeonista Lorenzo Anabalón, é uma mulher de qualidades demiúrgicas que lembra Pilar Ternera, personagem de Cem Anos de Solidão. A mulher cujo “riso louco enchia o mundo de pássaros” (p. 172) tem a mesma alegria vital de Pilar Ternera, “cujo riso explosivo espantava as pombas”. Ao longo do livro, a adjectivação tem o mesmo fôlego cosmogónico e escatológico, de natureza bíblica: “lascívia de animal edénico” (p. 12), “um assombro original” (p. 43), o “incêndio bíblico de um monumental pôr-do-sol” (p. 38).


Um dos pontos fracos do romance é o abuso no recurso a fantasmas, num esforço para acentuar a carga espectral da história. Em poucas páginas, há um corrupio de fantasmas e derivados: “presença fantasma”, “luz fantasmagórica das fogueiras”, globos de brilho fantasmal”, “o fulgor das luzes reflecte-se espectral”, “destroços de povoação fantasma”, etc. O mesmo sucede com os anjos que são de areia, criaturas celestiais, perversos, obstipados, famélicos, decrépitos, festivos, perdidos e até Uberlinda é uma espécie de animal angélico.
Embora o comboio de Rivera Letelier percorra os trilhos do realismo mágico (a transmissão oral de lendas e superstições), não se limita a repetir uma fórmula. Há uma autenticidade na sua escrita, uma crença quase ingénua na força da história, que o eleva acima da cópia preguiçosa e repetitiva. Nos mesmos carris, podem fazer-se viagens muito diferentes.

publicado por Bruno Vieira Amaral às 20:06
link do post

A Ilha do Tesouro

Os clássicos chegam até nós muito antes de os lermos. São nossos mesmo antes de virarmos a primeira página. São livros que lemos “com prévio fervor e misteriosa lealdade”, para utilizar a definição de Jorge Luis Borges. A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, é um desses livros. Por isso, quando o lemos, o sentimento não é de descoberta, mas de reencontro. O reencontro com algo que nos pertence desde sempre: Long John Silver, o pirata arquetípico da perna de pau e de papagaio ao ombro, o mapa do tesouro com o X que marca o local, a coragem adolescente de Jim Hawkins.

 

Seja qual for a classificação – romance de aventuras, de formação ou para jovens – o mais interessante é observar os meios que Stevenson usou para exacerbar a imaginação dos seus leitores. As hipérboles que tornam tudo excessivo, como convém ao romance de aventuras: “o pirata mais sanguinário” (p. 53), “dava a impressão de ser o melhor homem deste mundo” (p. 85), “era o homem mais generoso que havia no mundo” (p. 119), “jamais houve gente tão feliz” (p. 257); o repertório de emoções fortes, como injecções de adrenalina em cada página: “infundia um terror de morte” (p. 38), “o coração batia-me desordenadamente” (p. 39), “um ruído que me pôs o coração na boca” (p. 41), “ainda me não recompusera do pavor horrível” (p. 95), “comecei a sentir-me horrivelmente assustado” (p. 189), “sentia-me extraordinariamente entusiasmado” (p. 189), “prossegui, já em estado de grande exaltação” (p. 214); a promessa de acontecimentos extraordinários: “Tinha o espírito cheio de sonhos de aventuras no mar e em ilhas exóticas”, contudo “naquele sonhar acordado não aconteciam aventuras mais extraordinárias do que as que íamos viver” (p. 61); o conflito entre valores como a coragem, a honra e o dever, representados pelo grupo do narrador, e a ganância, a crueldade e a imoderação (alcoólica e financeira) dos piratas. Entre estes dois blocos antagónicos, desenhados a preto e branco, ressalta o colorido e moralmente ambíguo Long John Silver, com as suas constantes alterações de humor, de planos e de lealdades. Um vilão que não conseguimos odiar e de quem queremos gostar mais do que a sua personalidade desconcertante nos aconselha; por fim, o tesouro que simboliza o regresso ao prazer de uma leitura inocente e mágica. O tesouro que Robert Louis Stevenson trouxe de uma ilha longínqua para o deixar, eternamente, ao alcance das nossas mãos.

publicado por Bruno Vieira Amaral às 20:05
link do post

mais sobre mim

pesquisar

 

Janeiro 2011

D
S
T
Q
Q
S
S
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
17
18
19
20
21
22
23
25
26
27
28
29
30

tags

todas as tags

subscrever feeds

blogs SAPO


Universidade de Aveiro