Sexta-feira, 09 De Setembro,2011

Union Atlantic

Celebrado como “o primeiro grande romance do novo século”, Union Atlantic padece da obsessão em não falhar nenhum dos grandes temas da América contemporânea: 11 de Setembro, guerra do Iraque, terrorismo e crise financeira. Se a história não terminasse em 2002 teríamos a eleição de Obama, a reforma da saúde e a morte de Bin Laden. Mas não é por tocar em todas as bandeirinhas sem perder o equilíbrio narrativo, como um esquiador habilidoso num slalom gigante, que Adam Haslett capta o zeitgeist. Algumas das soluções são mesmo forçadas, como a escolha da festa do 4 de Julho para momento central do romance e que termina, previsivelmente, num pequeno apocalipse. A esta metáfora, desajeitada de tão óbvia, juntam-se pecadilhos como o excesso de minúcia sobre o funcionamento dos mercados e do sistema bancário que tem o duplo defeito de não surpreender os especialistas e de aborrecer os leigos. A dada altura, o romance parece-se com uma das personagens, capaz de reter imensa informação histórica, mas com grandes dificuldades “em organizar a sua própria vida.”

 

Também a construção das personagens obedece a um simbolismo esquemático que pode ser dividido em três blocos: a velha guarda, representada pelos irmãos Charlotte e Henry Graves, os tubarões hedonistas da finança (Doug Fanning, Jeffrey Holland e Paul McTeague) e a juventude anestesiada por doses excessivas de relativismo e de erva (Nate). No entanto, o instinto de Adam Haslett leva-o a acertar no diagnóstico final, como um médico incapaz de analisar exames mas competente a detectar doenças através de uma simples observação do paciente. E o mal do nosso tempo é a implosão da “arquitectura invisível da confiança” em que assenta o nosso modo de vida. A confiança que é a pedra fundamental no sistema bancário, nas instituições políticas e nas relações pessoais e familiares. O mundo de Charlotte e de Henry, o mundo estabelecido sobre regras sólidas e valores perenes, está ameaçado pela cultura de ostentação e desperdício personificada por Doug Fanning. Entre estas duas margens, a geração de Nate flutua sem destino.

 

Apesar do hiper-realismo e da excelente construção narrativa, Union Atlantic sofre da ânsia de querer explicar uma época, como se o verdadeiro destinatário do romance não fosse o leitor de hoje, mas um hipotético leitor do futuro mais interessado em História do que em romances.

publicado por Bruno Vieira Amaral às 12:23
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Ondina

“Parecia-lhe estranho estar a viver, ela própria, um daqueles contos de fadas que até então só ouvira contar.” Este curioso enxerto de meta-ficção, quase no final da narrativa, esclarece qualquer dúvida sobre a natureza da obra de La Motte-Fouqué, publicada em 1811. Conto sobrenatural e trágico, Ondina conjuga vários elementos dos contos populares e da mitologia centro-europeia. A casa isolada, a floresta misteriosa, a criança trazida pelas águas e a chegada de um estranho em busca de abrigo juntam-se a assombrações, sortilégios, premonições, sonhos e pressentimentos para criar um ambiente onírico e ameaçador. A mitologia pagã, centrada na Natureza, sobrepõe-se à tradição humanista do Cristianismo, sendo disso exemplo a figura do padre Heilmann e o seu reconhecimento do poder de Ondina. Da mesma forma, enquanto tragédia, Ondina alicerça-se mais no confronto entre os desejos humanos e as leis da Natureza do que no conflito entre a vontade humana e as leis divinas, comum na tragédia grega. A própria relação de Ondina – um espírito das águas que, a fim de obter uma alma, procura unir-se a um ser humano – com o cavaleiro Huldbrand cria as proibições que estão na origem da tragédia. Para evitar que a mulher seja levada definitivamente para o reino das águas, Huldbrand está proibido de manifestar descontentamento para ela sempre que estiverem perto de um curso de água. Como é característico dos contos de fadas, a verbalização do interdito serve para sublinhar a inevitabilidade da transgressão, conferindo-lhe a sua dimensão trágica. No conto de La Motte-Fouqué, porém, o castigo é severo e ninguém vive feliz para sempre. O final apaziguador aproxima a narrativa dos mitos cosmogónicos e reconcilia a pobre Ondina com o elemento ao qual nunca deixou de pertencer.

publicado por Bruno Vieira Amaral às 12:22
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